histórias de brasileiros e alemães

Capturado pelos brasileiros
O lobo perde o pelo, mas... Tinha 20 anos, era um segundo-tenente da Wehrmacht e acreditava na vitória final do seu exército. Capturado na Itália por soldados brasileiros da Força Expedicionária Brasileira, Klaus Dietrich Polz viveu a prisão como um choque. Muitos anos depois, admitiria que, se fossem os russos a capturá-lo, não teria sobrevivido.

A captura

Anos depois de cair nas mãos dos soldados brasileiros em combate na Itália, Klaus Dietrich Polz ainda se lembrava do sabor daquele dia: o de feijão-branco em lata com salsicha, oferecido por quem o tinha feito prisioneiro. Na época tinha 20 anos, vestia com orgulho o uniforme e levava no bolso a carteira da organização juvenil do partido. Meio século mais tarde, localizado pela revista brasileira Veja, descobriu que estava entre os protagonistas de um episódio em que alguns soldados alemães, já exaustos, se renderam aos brasileiros; entre eles, também um jovem oficial. Ele próprio. O episódio, que simboliza a fase final do conflito na Itália, foi contado com sutil ironia já em 1945 pelo jornalista Rubem Braga, que acompanhava a Força Expedicionária Brasileira como correspondente de guerra. “No fim da tarde de 11 de março, os brasileiros dispararam um número considerável de tiros de artilharia contra uma posição inimiga localizada numa pequena igreja perto do Monte Castello, nos Apeninos. Os alemães ergueram a bandeira branca. Após vários minutos de negociações, apareceu o tenente Polz, comandante de outra companhia, que exortou os soldados, prontos a render-se, a continuar a lutar. O intento falhou e o oficial acabou por ser capturado e levado com os outros pelas tropas brasileiras.”

Os documentos e os relatórios aliados

Quarenta anos depois, documentos encontrados num arquivo militar alemão da 114ª Divisão Leve confirmaram os pontos essenciais da história, uma vez que um posto de observação da artilharia alemã tinha registrado o sucedido. Também a inteligência do 5º Exército Aliado, sob cujo comando operava a Força Expedicionária Brasileira, se ocupou do caso Polz num longo relatório secreto recuperado num arquivo de Londres. As declarações bombásticas do oficial sobre a vitória final e a suposta superioridade da sua raça foram amplamente relatadas, de modo a oferecer aos comandantes aliados um quadro dos problemas que poderiam encontrar na relação com a juventude alemã no pós-guerra, então já previsível.

A versão de Polz

“Não foi exatamente assim”, sustentava Polz muitos anos depois, já idoso e parcialmente paralisado na época da entrevista concedida à Veja. “Fiz questão de esclarecer que não me estava a render e só entreguei a pistola e as duas granadas quando chegamos ao comando do batalhão brasileiro”. Lá, contava com amargura, alguém lhe tirou o relógio de pulso. Depois do prato de feijão com salsicha, foi colocado num caminhão, entre um motorista negro e um sargento. “Para mim era uma novidade absoluta. Nunca tinha visto um homem de pele escura”, contou Polz. O sargento que o mantinha sob a ameaça de uma arma recebeu ordem para guardar a pistola, mas o medo do jovem oficial alemão não desapareceu. “Era também pela forma como os brasileiros dirigiam”, disse. Mesmo prisioneiro, continuou a fazer a saudação nazista, provocando continuamente quem o interrogava. “Formar soldados e dominar o mundo são vocações germânicas”, declarou num dos interrogatórios.

O fanatismo e a propaganda

Um relatório transmitido em 11 de março de 1945 ao 2º Corpo de Exército Canadense, relativo ao interrogatório do jovem oficial alemão Klaus-Dietrich Polz, antecipava o que poderiam encontrar ao entrar na Alemanha. Polz parecia um nazista convicto, com quase dez anos de militância na organização juvenil do partido antes de ingressar na escola de oficiais e de ser destacado para um batalhão Jäger. A sua visão do futuro poderia desanimar qualquer oficial de inteligência aliado, apesar de a guerra estar já próxima do fim. Polz afirmava que a Alemanha iria vencer de qualquer forma: “Os alemães irão para as florestas e para as montanhas e lutarão até ao último homem. Mas seja qual for a porção de terra que ocupem na Alemanha, nunca conseguirão ocupar ou derrotar a nação alemã. Enquanto houver um único alemão vivo, lutará contra vocês. Nas zonas ocupadas, faremos uma guerra de desgaste. Nenhum soldado aliado se sentirá seguro em solo alemão. Não haverá traidores nem colaboradores. Mesmo que por fora possamos sorrir e curvar-nos perante o jugo aliado, recorreremos sem piedade a emboscadas e táticas de guerrilha até que cada centímetro do sagrado solo alemão seja libertado do odiado invasor”. A declaração de Polz prosseguia longamente sobre a tenacidade dos soldados alemães. Afirmações deste gênero, por mais ilusórias que fossem, só podiam alimentar os receios do Comando Aliado de ter de enfrentar uma população hostil, indócil e potencialmente refratária à ocupação. Polz mereceu assim o tratamento reservado a um prisioneiro considerado particularmente perigoso, até que os Aliados se convenceram de que não era um criminoso e não dispunha de informações militares relevantes.

Mudança de regime

Para que fosse o próprio tenente Polz a contar a sua história, teve de cair o Muro de Berlim. Libertado como prisioneiro de guerra, passou quase diretamente de uma ditadura para outra. Em 1947 filiou-se no SED, o partido único daquela que dois anos mais tarde se tornaria a Alemanha Oriental. Professor numa escola agrícola, conseguiu integrar-se bem no novo regime. Ele e a mulher levaram durante anos uma vida confortável perto de um lago. Depois veio o turbilhão da reunificação de 1990, que fez ruir, pela segunda vez na sua vida, o “sistema de valores” em que tinha acreditado. No meio de tantas recordações e de transformações tão profundas, o dia em que foi capturado pelos brasileiros permaneceu gravado de forma especial. “Sou grato aos brasileiros. Se tivessem sido os russos a capturar-me, teria morrido”. (Fonte: Revista Veja, 10 de maio de 1995). Cerca de trinta anos após a sua entrevista... o “vício” não se perdeu... pelo contrário, quem pensa como ele volta a erguer perigosamente a cabeça.

Pesquisa e tradução: Marcos Bueno  

Fonte e texto original em italiano: Patarlenga 

Foto: Patarlenga /Gruppo Culturale Il Trebbo. 

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