campos de concentração de Jaguaribe
Ceará: A Seca, a Fome e os Abarracamentos
Em 1877-79, o Ceará foi atingido por uma grande seca. Isso provocou uma migração gigantesca. Milhares de sertanejos abandonaram suas casas e seguiram para Fortaleza em busca de comida, água e trabalho. A cidade, que tinha uma população muito menor, ficou rapidamente sobrecarregada.
As jóias da coroa imperial
A situação foi tão aterradora que o próprio imperador D. Pedro II chegou a dizer que, se fosse necessário, “venderia as joias da Coroa” para socorrer os cearenses. Mas não há evidência de que D. Pedro II tenha efetivamente vendido as joias da Coroa
Os abarracamentos
As autoridades cearenses passaram a reunir os retirantes em abarracamentos, sobretudo nas áreas periféricas da capital. Em 1878, havia mais de 114 mil pessoas distribuídas nesses alojamentos, segundo levantamento citado por estudo da Fiocruz.
Os abarracamentos eram grandes espaços improvisados onde os retirantes eram concentrados, alimentados e submetidos a algum controle administrativo.
A intenção oficial era prestar assistência e evitar que a população faminta se espalhasse pela cidade.
Os abarracamentos em Fortaleza
Nos abarracamentos, os retirantes recebiam rações e, em alguns casos, assistência médica.
Mas esses lugares estavam longe de ser confortáveis, como se pode imaginar.
Eram instalações precárias, com superlotação, falta de higiene, escassez de água e alimentos e grande vulnerabilidade às epidemias.
A concentração de pessoas debilitadas favoreceu a disseminação de doenças.
Em determinado momento da seca, mais de 100 mil retirantes chegaram a estar concentrados nos arredores de Fortaleza, número extraordinário para uma cidade que não tinha estrutura para recebê-los.
Fortaleza, tinha 21 mil habitantes no ano de 1872, quando foi realizado o censo. Em 1878 passou a ter mais de 130 mil.
Assistência e controle
Os abarracamentos tinham, portanto, uma característica dupla.
De um lado, eram uma tentativa de socorrer a população faminta. De outro, funcionavam como instrumento de controle dos retirantes.
As autoridades temiam que a multidão de sertanejos invadisse a cidade, saqueasse estabelecimentos ou provocasse desordem.
Por isso, concentrá-los nos abarracamentos permitia controlar a distribuição de alimentos e limitar sua circulação.
Também se procurava aproveitar os retirantes como mão de obra em obras públicas. Muitos foram empregados em trabalhos como abertura e conservação de estradas e, posteriormente, na construção da Estrada de Ferro de Baturité.
A mortalidade
A situação tornou-se especialmente dramática em 1878, conhecido como o “ano da seca” ou “ano dos mil mortos” em algumas fontes e estudos sobre o período. A fome, a desnutrição e as epidemias atingiram duramente os retirantes.
Fortaleza foi tomada por uma enorme crise sanitária. Varíola, disenteria e outras doenças provocaram milhares de mortes.
Os abarracamentos acabaram se tornando, assim, símbolos da tragédia da seca de 1877–1879: eram simultaneamente lugares de assistência, confinamento, exploração de mão de obra e morte.
Abaixo:
Crianças refugiadas da Grande Seca do Nordeste de 1877 a 1879. Fotografia de Joaquim Corrêa, Fortaleza, Ceará. Acervo da Biblioteca Nacional.
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