Cuba encoberta

Integrada às Forças Armadas, holding Gaesa gerencia cerca de 40% do PIB e constrói luxuosos hotéis, em contraste com extrema escassez e apagões. 

Enquanto Cuba enfrenta a escassez e os apagões, um conglomerado empresarial vinculado às Forças Armadas do país administra secretamente bilhões de dólares.

A Gaesa (Grupo de Administración Empresarial S. A.) não tem website, nem endereço de correio eletrônico institucional conhecido, nem canais oficiais de contato. Ela não publica balanços, nem aparece no orçamento estatal.

A Assembleia Nacional do Poder Popular e a Controladoria Geral da República de Cuba não podem auditar suas contas — mesmo com a empresa embolsando praticamente cada dólar recebido pelos negócios mais rentáveis do regime cubano: turismo, remessas financeiras, comércio exterior e missões médicas no estrangeiro.

A holding pertence às Forças Armadas Revolucionárias de Cuba (FAR), mas também não está sob seu controle.

Em 2024, ela possuía bens no valor de pelo menos US$ 17,9 bilhões (cerca de R$ 89,4 bilhões), incluindo mais de US$ 14,4 bilhões (cerca de R$ 71,9 bilhões) em contas bancárias, segundo documentos vazados para o jornal americano Miami Herald.

A BBC não conseguiu verificar estes dados de forma independente.

Esta fortuna é maior que as reservas internacionais de países como o Equador, o Paraguai ou a República Dominicana. Ela ilustra a magnitude do império econômico representado pela Gaesa.

Tudo isso contrasta com a situação econômica de Cuba, um país praticamente falido, com queda acumulada de 15% do PIB nos últimos cinco anos e insolvente frente aos seus diversos credores internacionais.

Quase nove a cada 10 cubanos vivem em condições de extrema pobreza ou "sobrevivência", segundo estimou em 2025 o Observatório Cubano dos Direitos Humanos. E, neste ano, a crise no país se intensificou com apagões de várias horas por dia e com a escassez ainda maior de alimentos, combustíveis e medicamentos.

Nos últimos meses, o governo do presidente americano Donald Trump intensificou as sanções contra a ilha, com um bloqueio de facto do fornecimento de petróleo, que agravou os problemas de energia e abastecimento.

O contraste entre um Estado em bancarrota e a existência de uma entidade obscura que suga as principais fontes de receita sob o guarda-chuva militar levanta questões importantes que tentaremos responder a seguir.

Como opera a Gaesa? Quem está por trás dela? Onde ela guarda e investe o dinheiro?

Até que ponto esta economia paralela é responsável pela miséria que assola Cuba?

A BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) tentou entrar em contato com o governo cubano por diversas vias, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.

Qual é a sua origem e como ela opera?

"A Gaesa funciona como uma grande holding, um polvo de vários braços que se apropriou da economia cubana em quase todos os seus setores rentáveis ao longo dos últimos 15 anos", explica Emilio Morales, presidente da consultoria Havana Consulting Group, que estuda a economia cubana.

Mas a Gaesa nasceu muito antes, na década de 1990. Ela era um mecanismo criado dentro das FAR para administrar empresas que operavam com divisas em plena crise econômica (o chamado Período Especial), após a queda da União Soviética (1922-1991).

Seu objetivo inicial era relativamente limitado: gerar recursos para as próprias Forças Armadas por meio de negócios vinculados ao turismo, comércio exterior e outros setores que captavam dólares.

Mas, com o passar do tempo, essa estrutura se transformou em um império financeiro.

A deterioração da saúde de Fidel Castro (1926-2016), até então líder hegemônico de Cuba, levou à ascensão ao poder do seu irmão Raúl, interinamente em 2006 e formalmente em 2008.

Desde então, o conglomerado começou a se expandir rapidamente e absorver empresas estatais estratégicas, entre elas a maior de todas: a Cimex.

"Ao se apropriar da Cimex, a Gaesa adquiriu toda a sua rede de empresas, dentro e fora de Cuba: corporações localizadas em paraísos fiscais como o Panamá, comércios varejistas em moeda local e em dólares, postos de gasolina, negócios imobiliários, exportação, importação, atacadistas...", explica Morales.

A holding foi englobando outras empresas rentáveis, como as especializadas no setor turístico Gaviota e Habaguanex, parte da operadora de internet Etecsa e a gestão do porto comercial de Mariel, o maior do país.

A Gaesa assumiu também o controle do Banco Financeiro Internacional (BFI), que opera as transações de Cuba com o exterior.

Na prática, a holding monopolizou quase todos os negócios que atraem dólares: o turismo, comércio, telecomunicações, bancos, remessas financeiras, logística e construção.

No papel, Cuba funciona em um sistema socialista, no qual a economia é monopólio do Estado. Mas a Gaesa não presta contas à Assembleia Nacional e mantém seus balanços em sigilo.

"Seus balanços são secretos, a imprensa cubana não a menciona e ela trabalha em total obscuridade", explica à BBC o economista Pavel Vidal, um dos maiores especialistas nas finanças de Cuba.

"E, na verdade, também não paga impostos e não aparece nos orçamentos do Estado, já que tem um orçamento independente. É uma economia dentro de outra", define ele.

O sigilo em torno deste império na sombra é enorme.

Em julho de 2024, a então controladora-geral de Cuba, Gladys Bejerano, foi exonerada após 14 anos no cargo. Ela havia admitido, em um aparente descuido durante uma entrevista à agência de notícias EFE, que o Estado não teria jurisdição para auditar a Gaesa.

Três anos antes, em 2021, o então ministro das Forças Armadas de Cuba, Leopoldo Cintra Frías, foi suspenso, segundo fontes, pouco depois de tentar promover uma investigação interna sobre a holding multimilionária ligada à sua pasta.

Não se sabe ao certo, em nenhum dos dois casos, se as destituições foram relacionadas às suas incursões nos assuntos da Gaesa ou se foram meras coincidências. Bejerano e Cintra Frías eram septuagenários quando foram afastados dos seus respectivos cargos.

O grupo empresarial foi presidido por anos pelo general Luis Alberto Rodríguez López-Calleja (1960-2022), ex-genro de Raúl Castro e considerado um dos homens mais poderosos do país.

Foi sob seu comando que a Gaesa assumiu o controle das principais empresas estatais, até se tornar a gigante que é hoje em dia.

Após a morte de Rodríguez López-Calleja, em 2022, a presidência do grupo passou para a sua vice, a generala-de-brigada Ania Guillermina Lastres.

Estes são os dois únicos nomes conhecidos deste conglomerado empresarial multimilionário. Mas quem forma a elite que controla a Gaesa e seus bens?

Quem são seus donos?

Identificar os proprietários e diretores da Gaesa não é uma tarefa fácil.

Sua estrutura empresarial é extremamente obscura. Não se sabe quem lidera seus órgãos de decisão, não há um organograma oficial e boa parte das suas empresas operam por meio de redes societárias de difícil rastreamento.

Mas investigações jornalísticas, documentos vazados e relatórios de acadêmicos que passaram anos estudando o grupo oferecem importantes indícios sobre a elite deste poderoso conglomerado.

Segundo Emilio Morales, o poder é concentrado em um grupo seleto e reduzido. "Não ultrapassa 15 pessoas", revela ele.

"Não são nomes públicos, são muito herméticos. Eles têm designado a cada empresa um profissional de informática, um contador e um oficial da contrainteligência, para supervisionar toda a parte contábil", prossegue Morales, mencionando o testemunho anônimo de um ex-funcionário da Gaesa.

Ele afirma que a holding usa o aparato militar para garantir que o controle das suas empresas e operações permaneça sem ser questionado, mas quem realmente manda não são os generais das Forças Armadas.

"Na Venezuela, havia muitos arquipélagos de poder", compara ele.
"Diosdado [Cabello, ex-presidente da Assembleia Nacional] tinha o dele, [Vladimir] Padrino [ex-ministro da Defesa] o seu, [Nicolás] Maduro, Delcy [Rodríguez, atual presidente] etc."

"Mas o caso de Cuba é diferente. Raúl Castro nunca quis que os generais tivessem poder financeiro. Os generais existem para controle político."

Neste sentido, o presidente da plataforma acadêmica Cuba Século 21, Juan Antonio Blanco, explica à BBC News Mundo que Raúl Castro sempre tentou "evitar que os generais se corrompessem, tendo acesso a grandes valores em dinheiro".

Por isso, "a Gaesa foi reservada para um grupinho de elite da família Castro e os mais próximos", garante ele. "Existe um ou outro general, sim, mas não porque sejam generais, mas porque eram incondicionais, historicamente próximos da família de Raúl Castro."

Assim, a elite do colosso empresarial (ou parte dela) seria o entorno familiar e militar do general Raúl Castro, hoje com 94 anos. Oficialmente aposentado, ele continua sendo o homem mais poderoso de Cuba, segundo os analistas.

Raúl Castro tem quatro filhos: Déborah, Mariela, Nilsa e Alejandro Castro Espín. E também vários genros, netos e parentes próximos, que são vinculados a negócios e instituições importantes do poder.

Entre eles, estão seu influente ex-genro Luis Alberto Rodríguez López-Calleja, morto em 2022, e o seu neto e guarda-costas Raúl Guillermo Rodríguez Castro, conhecido como o "Caranguejo".

Rodríguez López-Calleja foi o artífice da grande transformação da Gaesa, antes uma limitada rede de empresas militares, em um gigantesco conglomerado que controla praticamente todas as atividades rentáveis do país.

Já em relação ao "Caranguejo", suas frequentes viagens ao Panamá na última década (foram mais de 20 entre 2024 e 2025, segundo fontes, muitas delas em aviões particulares) levaram muitas pessoas a associá-lo diretamente aos negócios milionários da holding.

Os especialistas também acreditam que o papel da atual presidente-executiva da Gaesa, Ania Guillermina Lastres, é principalmente operacional: ela representa e supervisiona a empresa, mas não faz parte do seu núcleo de proprietários, com poder de decisão e acesso aos seus fundos multimilionários.

O nome de Lastres é o único que se dá a conhecer neste emaranhado, já que não existe um organograma oficial.

Perguntar sobre o lado interno da Gaesa é como encontrar um muro pela frente. Muitas das suas empresas são estruturadas em redes de companhias e filiais, que ocultam os verdadeiros donos dos negócios.

"Os acionistas de uma empresa podem ser outra empresa; e, desta, uma outra empresa — uma cadeia de companhias, para que não se consiga realmente chegar ao verdadeiro dono", segundo Morales. "E, no fim, você encontra um nome que é colocado ali como testa de ferro."
Este tipo de estrutura é frequente em paraísos fiscais ou jurisdições com baixa transparência corporativa. Ela também dificulta seguir o rastro do dinheiro.

Daqui, surge outra pergunta importante: onde está e qual é o destino do dinheiro da Gaesa?

Onde está o dinheiro?

O conglomerado passou mais de duas décadas ampliando sua presença em setores fundamentais do país, sem que ninguém conseguisse avaliar a magnitude do seu império econômico.

A Gaesa mantém suas contas em segredo e opera fora do escrutínio público. Mas o vazamento de documentos internos publicado no ano passado pelo Miami Herald trouxe um facho de luz, ao fornecer números específicos pela primeira vez.

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