o nome dele é Valdemar
A VERSATILIDADE DA MORTE
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Marilyn Monroe se mata com barbitúricos, Stefan Zweig com veneno, Goering com uma cápsula de cianureto, Santos Dumont com uma gravata, Maiakóvsky com um tiro na cabeça, Getúlio – como Van Gogh - com uma bala no coração, Hemingway dispara a espingarda no céu da boca, Kurt Cobain com um tiro na cabeça, Robin Williams se enforcou com o cinto, Mishima praticou o haraquiri – mais ou menos o que fez Brutus ao atirar-se contra a própria espada, Cleópatra ao se fazer picar por uma víbora.
O jovem Marlon Brando – em uniforme nazista – cai de borco numa poça, atingido por soldados inimigos, em “Deuses Vencidos”; desaba todo sacudido de balas no centro de uma praça, no “Viva Zapata”; cai sentado no chão, perplexo, apunhalado pelas costas, em “Queimada”; morre na meia-idade, baleado pela amante muito jovem – depois de tirar o chiclete da boca e de grudá-lo na janela, em “O Último Tango em Paris”; e morre de infarto, já velho, ao brincar com o neto na horta de “O Poderoso Chefão”.
Aí Gagárin, Leila Diniz, Agostinho dos Santos e Gardel morrem todos em quedas de aviões, enquanto se dá uma série de desastres de automóveis em que se arrebentam James Dean, Francisco Alves, Juscelino Kubitschek, Albert Camus, Lady Di e Ayrton Senna, ao tempo em que Lawrence da Arábia – depois de mil aventuras no deserto - se esbagaça com uma moto no trânsito inglês.
Christopher Reeve – tetraplégico – morreu de infarto, como Frank Sinatra e José Wilker. George Michael, de insuficiência cardíaca. Chico Anysio, de uma parada cárdio-respiratória
Paralelamente, Ernesto Nazaré morreu afogado, Fred Mercury , Rock Hudson, Michel Foucault, Nureiev, Cazuza, Sandra Bréa, Caio Fernando Abreu, Lauro Corona, Renato Russo, Henfil e Betinho, de AIDS, Euclides da Cunha é fulminado num duelo com armas de fogo, Pinheiro Machado é assassinado a faca, Trotsky cai com uma picareta de gelo metida no cérebro, Valentino e Houdini morrem de peritonite, Belchior morreu por causa do rompimento da aorta, meu amigo Kaplan morreu devido a uma siringomielia, meu amigo Dr. Atêncio Wanderley do coração, minha mãe, meu irmão e meu filho de câncer, Al Jolson, Le Corbusier e Carmem Miranda, de colapso, Lumumba, Lorca e Mussolini foram fuzilados... e aconteceu a terrível agonia e morte de câncer de Ingrid Thulin no “Gritos e Sussurros”, de Bergman; a terrível agonia e morte por câncer de Geraldine Chaplin no “Cria Cuervos”, de Saura; a terrível agonia e morte por câncer de minha mãe; de meu irmão, de meu filho; a terrível agonia e morte de John Wayne por câncer; David Bowie, de câncer; Betty Lago e Marília Pera, de câncer; Allan Rickman, de câncer; Gabriel García Márquez, de câncer; de Bob Marley por um câncer nos pulmões e no cérebro, a terrível agonia e morte por câncer na boca – de que Freud se livrou com três injeções de morfina, a terrível morte de Gary Cooper com câncer na garganta, de Napoleão Laureano no maxilar, de Pedro Collor no cérebro, de Lacan no colo retal, enquanto Billie Holliday, Jim Morrison, Philip Seymour Hoffman, Amy Winehouse, Elvis Presley, Elis Regina, Cássia Eller, Michael Jackson, Prince, e Janis Joplin s e foram em overdoses, Stálin e Clark Gable se acabaram numa hemorragia cerebral; Caril Chessman, executado na câmara de gás, o casal Rosemberg na cadeira elétrica, Portinari morreu intoxicado pelas tintas, meu pai morreu com uma pneumonia, Costa e Silva com uma trombose, Madame Curie de leucemia, Cacilda Becker de trombose.
Kichizo se submete – no “Império dos Sentidos” - ao enforcamento executado por Sade Abe para lhe proporcionar o gozo insuperável de uma ereção de enforcado, Drummond morreu desiludido com a morte da filha, doze dias antes, o judeu-romano Messala - vivido por Stephen Boyd – derrotado e mil vezes atropelado no Circo Máximo – expirou rascante e profundamente na mesa de amputação – todo estropiado – gozando triunfantemente o gemido fundo que o vitorioso Ben-Hur de Charlton Heston comprime ao saber, pelo agonizante, que a mãe e a irmã estão vivas, sim, mas no Vale dos Leprosos, ...e o que mais?: Ana Karenina se atira para debaixo do trem, Ofélia morre afogada, Empédocles se atira na cratera do Etna, Joana Darc e Giordano Bruno são mortos na fogueira, Danton e Robespierre são guilhotinados, Lady Macbeth se enforca, Tiradentes é enforcado, Santo Estevão é lapidado, Sócrates é condenado a tomar cicuta, Otelo e Julieta se apunhalam, Dagoberto Marçau cai nos abismos de Areia com cavalo e tudo, e o violentíssimo Macbeth japonês de Kurosawa – em “Um Trono Manchado de Sangue”- mesmo com uma multidão de flechas a penetrá-lo todo – como a um São Sebastião – resiste até que uma derradeira frechada lhe cruza a goela – sflich! – e ele cai!
E se vê ( depois do duelo com Charles Bronson ), a mão de Henry Fonda girando o colt no indicador e... errando o coldre, frouxa, ele tombando, perplexo, em “Era Uma Vez no Oeste”, cena semelhante à do duelo final do “Vera Cruz”, depois do qual o bronzeado Burt Lancaster dá um belo e alvíssimo sorriso para Gary Cooper... e desaba morto, do mesmo jeito.
Segue-se o estúpido tirambaço do final de “Sem Destino”, em que Denis Hopper – vindo de moto - é alvejado por uma 12 – por um idiota dentro de uma camioneta - e voa com tudo para fora da pista, ao que prosseguimos com uma série de disparos e vemos Mahatma Gandhi baleado na Índia, Sadat no Egito, Guevara na Bolívia, John Lennon em Nova Iorque, John Kennedy em Dallas, Luther King em Memphis e João Pessoa em Recife, enquanto o pedreiro cai na contramão atrapalhando o tráfego, a multidão grita “Olé!” quando Manolete é traspassado pelos chifres do miúra, Isadora Duncan – passeando à toda velocidade no seu carro-esporte – de repente tem a longa e esvoaçante écharpe embaraçada nas hastes metálicas de um dos pneus e – Argh!
Uf!
Aí me pergunto: como será o meu fim?
- Surprise!
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( Nunca me esquecerei do dia - no final dos anos 80 ) em que este meu texto saiu num dos jornais de João Pessoa. Eu estava trabalhando na agência 1817, do Banco do Brasil, quando João Batista de Brito se aproximou perguntando-me se eu estava com algum problema. "Não. Por que?" Mostrou-me o artigo. )
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