Celinda tenha calma
A vice-governadora Celina Leão (PP) ficou em maus lençóis quando veio a público que havia movido uma ação por danos morais contra jovens do Movimento Kizomba — estudantes e trabalhadores das periferias do DF que, num protesto, ergueram cartazes cobrando explicações sobre o escândalo do BRB. A notícia circulou, gerou reação, e o gabinete sentiu o peso político do que havia feito. A resposta foi uma nota da assessoria. E a nota mentiu.
O comunicado tentou reduzir o processo a uma questão de "afixação de cartazes em equipamentos públicos", versão mais palatável, que transforma uma ação de intimidação política numa simples disputa administrativa. O problema é que os autos dizem o contrário.
A petição inicial, assinada pela própria advogada de Celina, é explícita: o objeto da ação é a suposta "imputação direta de conduta criminosa" e uma alegada "campanha estruturada de deslegitimação pessoal e política". No item dedicado ao pedido, requer-se condenação por danos morais em razão da "imputação falsa de prática criminosa e da ampla divulgação de conteúdo ofensivo à honra e à reputação da autora". O pedido é de R$ 30 mil. Não há espaço público nem cartaz mal fixado nisso.
Os jovens não invadiram gabinete, não depredaram nada, não ameaçaram ninguém. Foram a uma praça, ergueram cartazes e fizeram perguntas que qualquer cidadão tem direito de fazer. Processar jovens periféricos por isso já era, por si só, uma imagem politicamente difícil de sustentar. Tentar reescrever o que estava escrito nos próprios autos só aprofundou o estrago. Quando a mentira é verificável em duas linhas da petição inicial, ela não protege ninguém, expõe quem a contou.
Não é a primeira vez que Celina, pressionada, escolhe uma versão conveniente dos fatos. Foi assim quando afirmou que a saúde era a área em que mais recebia elogios. Foi assim quando o rombo do BRB virou escândalo. E é assim agora. A diferença é que desta vez a contradição está nos próprios autos que ela assinou.
Ficou feio processar estudantes. Ficou mais feio ainda mentir sobre o processo.
✍️ Douglas Protázio
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