Ceilândia

Ceilândia foi criada para resolver um problema que não era dela. Em 1971, o governo do DF precisava limpar o campo de visão entre o Palácio do Planalto e o sítio do Riacho Fundo, e havia barracos no meio do caminho. A solução foi embarcar 80 mil pessoas em caminhões e desembocá-las a 30 quilômetros do Plano Piloto, num terreno sem água, sem escola, sem asfalto, sem nome. O próprio nome veio daí: CEI, Campanha de Erradicação de Invasões. A Ceilândia não nasceu como cidade. Nasceu como erradicação batizada de endereço.

Cinquenta e cinco anos depois, a cidade continua sendo tratada como um problema a administrar, não como um lugar a desenvolver. A maior cidade do DF carece de infraestrutura básica em bairros inteiros. O centro acumula abandono visível: entulho, comércio desassistido, ruas que inundam a cada chuva com a regularidade de quem nunca foi consertado. A insegurança transformou calçadas movimentadas em corredores de risco, com quase 1.850 pedestres assaltados num único ano ao caminhar pela região.

Há um parque criado em decreto em 1995 que esperou 29 anos por outro decreto que o tornasse real. Há escolas em ruínas aguardando reconstrução há décadas, enquanto alunos estudam em barracões provisórios que já duram uma geração. Há promessas de drenagem que atravessam mandatos sem se concretizar, e bairros que alagam todo ano como se o tempo não passasse. O padrão se repete com frequência suficiente para deixar de parecer falha e passar a parecer escolha: manter a cidade no limite do tolerável, mas longe do aceitável.

E então chega o ano eleitoral e Ceilândia vira palco. Políticos que passaram quatro anos distribuindo omissões reaparecem com propostas calibradas e discursos financiados. Os aniversários ganham estrutura, shows, presença. A cidade que abastece a capital de votos recebe atenção só quando o calendário manda. Mas o problema não é a ingratidão dos políticos. É que Ceilândia foi projetada para ser exatamente isso: útil sem precisar ser tratada. Aos 55 anos, a mais populosa do DF ainda aguarda ser reconhecida à altura do que representa.

✍️ Douglas Protázio

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