Bodegas de Cajazeiras são lembranças do passado
MERCEARIAS E BODEGAS DE CAJAZEIRAS ANOS SESSENTA
BODEGAS no tempo em que não havia tecnologia, armazéns e bodegas existiam em várias ruas do centro e bairros de Cajazeiras. A maioria estava localizada na Rua Coronel Guimarães – conhecida como Rua da Tamarina – e na Rua Padre Manoel Mariano, no centro, além da Praça Camilo de Holanda.
"ORDENADO" ERA O SALÁRIO. Os pais pediam a seus filhos que fossem até a venda comprar alguma coisa de última hora e anotar na caderneta, que o sistema de crediário mais simples da época. Os donos das mercearias e bodegas sabiam os dias em que cada freguês recebia seu ordenado, o conhecido “salário”, e já esperava o pagamento no final do mês. A palavra dos clientes e a confiança dos comerciantes eram o que valiam.
CADERNETA DE FIADO, era o cartão de crédito de antigamente: “pegue hoje e pague no final do mês”. Todo mundo tinha uma conta na vendinha perto de casa, e suas dívidas eram anotadas ali. Algumas vendas adotavam uma caderneta dupla, em que uma ficava no estabelecimento e a outra com o freguês. A cada compra, ambas eram atualizadas.
CRIANÇAS COMPRAVAM naqueles lugares, pegavam o que a mãe havia pedido e, também, algumas guloseimas que pediam, às vezes, sem conhecimento dos pais. Mas o dono do estabelecimento as atendia. Ninguém tinha nenhum problema com isso: nem a mãe, nem o comerciante e, principalmente, nem as crianças. Aliás, era como se fossem uma família, porque todos se conheciam pelo nome e confiavam uns nos outros.
O BALEIRO, era o pequeno depósito giratório de vidro com vários compartimentos, não podia faltar em nenhuma mercearia ou bodega. Ficava em cima do balcão. Era lá que estavam as opções e marcas de balas, chicletes e pirulitos mais desejados pela garotada da época. Na parte inferior do balcão havia um espaço com vidro na frente, onde eram guardadas cocadas, doces, pé de moleque, alfenim, rapadura, batida. O acesso era apenas pelo lado de dentro, pelo comerciante.
AS BALANÇAS eram de dois tipos, em épocas diferentes. As mais antigas tinham dois pratos – um de cada lado – e os pesos comparativos de ferro, com medidas em gramas e quilos. A outra, mais moderna, era a balança de precisão da marca Filizola, indispensável nos armazéns de secos e molhados, como eram conhecidos esses estabelecimentos.
SACOS DE CEREAIS como arroz, feijão, farinha e milho eram vendidos a granel e ficavam acondicionados em enormes sacos de estopa ou lonas finas. O freguês pedia por peso, e o vendedor, com a ajuda de uma concha de medição, pesava a quantidade certa.
O RÁDIO NO BALCÃO. No canto do balcão ou na prateleira havia sempre um rádio, que fazia, às vezes, de central de entretenimento do lugar. Era o companheiro inseparável do comerciante, que passava boa parte do tempo sozinho. Sempre sintonizado nas emissoras AM — Difusora Rádio Cajazeiras e Rádio Alto Piranhas —, trazia notícias, programas diversos, música brasileira e programas de viola e violeiros.
PÉS INCHADOS NO CANTO DO BALCÃO. Senhores e jovens compravam bebidas para consumir em casa, mas havia aqueles que gostavam de beber no pé do balcão. O cantinho era o local onde essas pessoas ficavam, bebendo e jogando conversa fora sobre os mais variados assuntos: política, futebol, vida cotidiana, viagens, mulheres… assunto era o que não faltava. As cachaças Caranguejo, fabricada em Campina Grande (PB), e Pitú, de Vitória de Santo Antão (PE), eram as mais consumidas, porque a maioria dos trabalhadores da cidade, naquela época, ganhava salário mínimo e essas bebidas tinham preços acessíveis.
PITÚ & CARANGUEIJO. Lembro-me de que, na época do Carnaval, caminhões chegavam em Cajazeiras carregados de Caranguejo e Pitú para abastecer o comércio local.
POR: José Pereira Filho. FOTO: de Rodrigo Ruas (SC)
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