Lula banca os moradores de rua com o dinheiro do contribuinte
O Avesso da Vitrine
A cidade, em sua pressa cotidiana, veste a capa da indiferença como um sobretudo de grife. Caminha rápido, a cabeça baixa, os olhos fixos no chão, mas não no que de fato está lá. O que está lá, nos cantos úmidos, sob as marquises frias, é o avesso desta mesma cidade: as pessoas que fizeram da rua seu endereço.
São os invisíveis que, paradoxalmente, ocupam o espaço público mais do que qualquer outro. São os silêncios que a arquitetura não conseguiu abafar, os sussurros de histórias que a estatística insiste em reduzir a números. Vemos o monte de roupas sujas sob o viaduto, mas nem sempre enxergamos o corpo que as veste. Ouvimos o pedido de moeda, mas raramente escutamos a voz que o profere.
Cada embrulho de papelão, cada cobertor puído, cada carrinho de supermercado abarrotado de pertences conta uma epopeia de perdas. Perda do teto, do emprego, da família, da esperança, e, a mais cruel de todas, a perda da dignidade. A rua não é um lugar, é uma condição. É a fronteira onde o ser humano é reduzido à sua necessidade mais elementar: sobreviver até o próximo amanhecer.
Conheci um deles, chamemo-lo de João. Ele não tinha mais de trinta anos, mas seu rosto parecia ter sido esculpido pela chuva e pelo sol de cinquenta invernos. João tinha um sorriso tímido, quase um pedido de desculpa por existir. Ele não pedia dinheiro, pedia livros. Revistas velhas, jornais amassados, qualquer coisa que pudesse acender um fósforo na escuridão de sua mente. Dizia que, ao ler, ele não estava mais na calçada fria, mas em palácios, noutras cidades, noutras vidas que ele, um dia, talvez tivesse sonhado. O pedaço de papel era seu bilhete de volta para uma humanidade que a rua tentava roubar.
E há as famílias. O espetáculo mais chocante da miséria. Mães que usam caixas de papelão como berços, pais que disputam restos de comida com pombos para alimentar seus filhos. São a prova viva do fracasso coletivo, do buraco negro social que engole quem estava na beira do precipício. E o olhar das crianças? Ah, o olhar das crianças de rua é um espelho. Reflete o nosso próprio medo, a nossa culpa velada, a nossa vergonha por termos esquecido que moradia é um direito, não um luxo.
A rua é a grande niveladora. Não importa quem você foi — um operário, um universitário, um pai de família, um dependente químico, um ex-presidiário, um doente mental — ali, você é apenas "o morador de rua". Você é o outro, o indesejado que atrapalha o fluxo, a mancha na paisagem urbana que o poder público tenta varrer para debaixo do tapete.
No entanto, há uma teimosia de vida em cada acampamento improvisado. Há a solidariedade silenciosa entre eles, a partilha da ponta do cigarro, do pedaço de pão, o aviso sobre a ronda da polícia ou a chegada da chuva. É uma comunidade de excluídos, um corpo social à parte que prova que, mesmo na desgraça, o ser humano busca o calor do seu semelhante.
E nós, os de "dentro", continuamos a construir muros invisíveis. Olhamos para o lado, apressamos o passo, murmuramos um "Deus te ajude" vazio, como se a caridade de um trocado fosse capaz de consertar a injustiça de um sistema. A crônica da rua é a crônica da nossa falência moral. É o conto de horror que se repete a cada noite, sob o brilho neon dos outdoors que prometem uma felicidade que nunca lhes será entregue.
Talvez o que mais incomode nas pessoas que moram nas ruas seja o fato de que elas são um espelho. Um espelho rachado que reflete a fragilidade de nossa própria existência, a fina linha que nos separa do caos. E é por isso que continuamos a olhar para o avesso da vitrine, a enxergar apenas o reflexo distorcido, para não termos que encarar a verdade nua e crua: somos todos vizinhos, e a casa deles é a nossa rua.
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