Azenha conhece essa mulher
Em 1978, Meryl Streep tinha 29 anos. Estava à beira de se tornar a atriz definitiva de sua geração — mas também à beira de perder o amor de sua vida.
O amor era John Cazale, o ator de presença discreta e talento imenso, eterno Fredo de O Poderoso Chefão, parte essencial de filmes como Um Dia de Cão e A Conversação. Todos os cinco filmes em que atuou seriam indicados ao Oscar de Melhor Filme. Entre os colegas, era reverenciado: Al Pacino dizia que aprendera mais com ele do que com qualquer outro parceiro de cena.
Meryl e John se conheceram em 1976, no palco do Central Park, em Medida por Medida. Ela, uma promessa em ascensão; ele, já lenda entre seus pares. Viviam uma vida simples em Nova York — jantares em Little Italy, noites de teatro, conversas sem fim sobre personagens, vida e arte.
Em 1977, tudo mudou. Cazale foi diagnosticado com câncer de pulmão em estágio avançado. A sentença era terminal. Ainda assim, ele quis continuar trabalhando. E conseguiu: foi escalado para O Franco Atirador, ao lado de Robert De Niro e Christopher Walken. Os produtores queriam demiti-lo, temendo custos do seguro. Mas, segundo relatos, De Niro assumiu os gastos para que Cazale pudesse brilhar uma última vez.
Meryl aceitou um papel que não gostava, apenas para permanecer ao lado dele. Passava os dias cuidando de John, os olhos sempre atentos, as mãos firmes mesmo no cansaço. “Ela nunca deixou o quarto dele”, diriam depois.
Na madrugada de 12 de março de 1978, no hospital Sloan Kettering, o coração de Cazale parou. Meryl soluçou, bateu no peito do amado, incapaz de aceitar. E, por um instante quase milagroso, ele abriu os olhos. “Está tudo bem, Meryl”, sussurrou. “Está tudo bem.” Então partiu.
Essa dor se tornaria ferida e força. Pouco tempo depois, Meryl Streep mergulharia em personagens que a consagrariam como a maior atriz de sua geração. Mas por trás da glória, havia sempre a lembrança de John Cazale, o homem que a ensinou que o amor e a arte podem ser inseparáveis — e que às vezes uma vida breve deixa a marca mais duradoura.
Texto: André Azenha
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