Kilmer

Val Kilmer (1959-2025) entregou uma atuação praticamente inigualável no cânone dos filmes de faroeste ao interpretar Doc Holliday em *Tombstone*. Sua interpretação está gravada com uma mistura estranha e hipnótica de rudeza, elegância, lealdade, vingança, humor e autossacrifício destemido. Ele nos mostra como é o desafio à morte no homem natural, separado da graça de Deus. É um homem à deriva em *Tombstone*, sem lar, encontrando consolo apenas quando a morte se aproxima tanto que ele pode sentir o hálito do ceifador em sua nuca. Não há outra atuação como essa no cinema; ela eletriza, surpreende, entristece e nos toca profundamente.  

Ao executar essa verdadeira aula de interpretação, Kilmer assumiu um papel coadjuvante em um filme que, em certos momentos, esteve à beira do colapso, e o transformou em uma elegia shakespeariana. É impressionante o que ele conseguiu fazer. Eis a verdade: a atuação de Kilmer como Doc não apenas roubou *Tombstone*, mas reconfigurou todo o filme em torno da lealdade fria e inabalável de seu personagem.  

As falas icônicas de Kilmer fazem com que muitos o citem diariamente – e com razão –, mas o humor esconde a verdadeira ressonância do papel. No fim das contas, *Tombstone* nos comunica que ter apenas um verdadeiro amigo – alguém que permanece ao seu lado na hora da provação – vale mais do que ouro. O ceifador veio, de fato, buscar Doc, e seu nome já estava escrito nos livros do destino. Mas Doc também é um ceifador por conta própria, e ai daquele que ousar cruzar seu caminho – ou o de seus amigos – antes que sua hora chegue.  

Kilmer nos deixou um legado grandioso nesse filme; agora ele se foi. Como Doc no final, partiu sozinho para o pôr do sol, e não veremos outro como ele.

Via: @profstrachan

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

JOSÉ ROBERTO GUZZO

lendas de Cajazeiras por José Pereira